quinta-feira, 24 de março de 2022

Precisamos falar sobre HIPERVIGILÂNCIA e Doença Celíaca

 


Por Raquel Benati (@rio_sem_gluten)

A palavra HIPERVIGILÂNCIA vem sendo cada vez mais usada quando se fala em tratamento da Doença Celíaca.
Nas primeiras vezes em que ela foi usada por Celíacos e Cuidadores em grupos virtuais tinha como sinônimo o cuidado rigoroso em relação aos riscos de contaminação cruzada por glúten em alimentos, utensílios e ambientesque precisamos ter na dieta sem glúten.
Com o passar do tempo veio a compreensão do termo hipervigilância no contexto da Psicologia/ Saúde Mental e sua relação com transtornos emocionais.
O objetivo desse texto é entendermos melhor o que é a Hipervigilância e sua manifestação no contexto da Doença Celíaca.
Acompanhe e entenda!






HIPERVIGILÂNCIA & SAÚDE MENTAL

A hipervigilância é mais do que apenas ser muito vigilante. É um estado de alerta extremo que prejudica a qualidade de vida.
Se a pessoa é hipervigilante, estará sempre à procura de perigos ocultos, tanto reais quanto imaginários.
Por causa disso a hipervigilância pode provocar exaustão física e mental e interferir nos relacionamentos, trabalho, estudos e na capacidade de funcionar no dia a dia dessa pessoa.
A hipervigilância é uma forma do corpo se proteger de supostas situações perigosas. Portanto, ela se manifesta em ambientes onde a pessoa nota uma ameaça extrema.
Pessoas hipervigilantes estão sempre à procura de ameaças externas, evitando situações cotidianas onde perigos possam estar ocultos. Elas podem ter inclusive reações fisiológicas frente a essas ameaças, induzidos por hormônios associados com a reação de lutar ou fugir.
A hipervigilância causa sofrimento intenso e provoca prejuízos significativos em diferentes áreas da vida.
O tratamento para a hipervigilância pode variar de acordo com a causa e severidade do comportamento.
Também depende de a pessoa afetada reconhecer o comportamento como anormal ou não.
O tratamento envolve psicoterapia, treinamento de atenção plena (meditação e relaxamento) e técnicas de enfrentamento além do uso de medicamentos, quando necessário.
As opções incluem a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A meta da TCC é ensinar ao paciente, através de conversas com o terapeuta, que ele não pode controlar todos os aspectos do mundo ao seu redor, mas que pode controlar a forma como interpreta e reage ao ambiente.
Se você está sofrendo com a hipervigilância, procure a ajuda de um profissional da saúde mental.
Mais importante, se comunique. Sofrer em silêncio e se recusar a falar sobre o que está sentindo apenas reforçará seus medos e te afastará dos outros. Encontre um amigo ou familiar de confiança, de preferência alguém que não minimize seus medos.



ENTENDENDO A NECESSIDADE DA VIGILÂNCIA NA DOENÇA CELÍACA


VIGILÂNCIA: estado de quem vigia, de quem age com atenção e precaução para evitar riscos e perigos /Ação de quem age com cautela e prudência.
Na Doença Celíaca o único tratamento existente é uma dieta isenta de glúten: significa a eliminação total de fontes de glúten (conjunto de proteínas do trigo, cevada e centeio) da dieta, por toda a vida. É uma condição permanente, exigindo controle ininterrupto.
Isso requer uma série de cuidados que cada celíaco (ou quem cuida dele) precisa ter para garantir a restauração e manutenção da sua saúde diariamente.
Nesses cuidados, além de não haver consumo de fontes de glúten é preciso evitar a contaminação cruzada por glúten, que é a transferência de traços ou vestígios de glúten entre alimentos, superfícies e utensílios culinários nas mais diversas situações cotidianas dentro ou fora de casa.
Esses traços de glúten são suficientes para adoecer os celíacos e manter essa doença autoimune ativa, com inflamação do duodeno e toda a cascata de problemas decorrentes desse processo.
A doença celíaca quando não tratada adequadamente, pode levar a pessoa a um quadro de adoecimento grave e até à morte.
É nesse contexto do cuidado constante com a própria saúde que vamos ver a necessidade da VIGILÂNCIA na Doença Celíaca, pois o glúten é onipresente no mundo de hoje.
Para ficar mais fácil de entender temos como exemplo o serviço da “Vigilância Sanitária- VISA, ligado às Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde:
“Vigilância sanitária é o conjunto de ações para ELIMINAR, DIMINUIR OU PREVENIR riscos à Saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da Saúde.
Os agentes da VISA ao fazerem fiscalização em fábricas, supermercados, frigoríficos, restaurantes, verificam uma série de pontos para saberem se há segurança para o consumo desses alimentos.
Na doença celíaca é assim também: há uma série de pontos que precisam ser checados e ações que precisam ser adotadas diariamente para garantir que o glúten e os seus traços não sejam ingeridos pelos Celíacos.



VIGILÂNCIA CELÍACA


VIGILÂNCIA CELÍACA: criando procedimentos para autogestão da segurança de alimentos na dieta sem glúten / Preenchendo lacunas onde a Ciência ainda não tem respostas claras.
Parece título de artigo científico, mas é preciso explicar um pouco mais sobre o contexto da VIGILÂNCIA no controle da Doença Celíaca.
A dieta sem glúten surgiu como tratamento da doença celíaca na metade do século XX. De lá pra cá houve um aumento no número de pesquisadores interessados em entender melhor tudo que envolve essa doença autoimune e seu tratamento.
Uma dessas pesquisas, publicada em 2007, teve o objetivo de estabelecer um limiar seguro de ingestão de vestígios de glúten para celíacos.
A pesquisa revelou grande variação entre os pacientes na sensibilidade aos traços de glúten.
Nela se mostrou que 50mg de glúten/dia, ingeridos por 3 meses, foram suficientes para causar uma diminuição significativa da relação vilosidade/cripta na mucosa duodenal em pacientes tratados com Doença Celíaca.
Esse estudo influenciou o CODEX ALIMENTARIUS a adotar o limite máximo de 20ppm de glúten em alimentos rotulados como sem glúten em 2008.
Também nessa época vimos aumentar as recomendações de cuidados com vestígios de glúten para pacientes celíacos nos consultórios dos gastroenterologistas e nutricionistas.
Mas muitas dúvidas referentes às mais diversas situações do cotidiano da comunidade celíaca continuaram sem respostas, por falta de um volume maior de pesquisas específicas.
E foi justamente nessa lacuna de orientações oficiais que muitas “regras” da #vidasemglúten nasceram: partindo da experiência dos próprios celíacos ou seus cuidadores, compartilhadas nos grupos de apoio e/ou com a ajuda de ferramentas da Internet.
Esse fenômeno é descrito nas pesquisas em Saúde:
"EXPERIÊNCIA DA DOENÇA" e é entendido como a forma pela qual os indivíduos posicionam-se perante a situação da enfermidade, conferindo-lhe significados e desenvolvendo modos rotineiros de lidar com essa condição.
As respostas aos problemas criados pela doença constituem-se socialmente e remetem diretamente a um MUNDO COMPARTILHADO DE PRÁTICAS, CRENÇAS E VALORES.


VIGILÂNCIA - BASE DA SAÚDE CELÍACA


O diagnóstico de doença celíaca provoca um rompimento do fluxo cotidiano na vida da pessoa e seus familiares, fazendo com que seja necessário a reorganização das atividades diárias.
Embora o tratamento seja aparentemente simples (tirar os derivados de trigo, aveia, cevada e centeio da dieta) na prática é algo bem complexo, pois a presença de glúten e de seus vestígios em nossa sociedade é tão grande quanto é o desconhecimento sobre a doença celíaca.
A pessoa Celíaca precisa cuidar e garantir que seu alimento seja isento de glúten e vigiar para que assim permaneça até que seja ingerido.
Isso envolve estar vigilante dentro e fora de casa em todas as refeições, todos os dias, para sempre, pois a condição celíaca é por toda a vida.
Uma VIGILÂNCIA rigorosa e constante é a base da Saúde Celíaca. É ela que vai possibilitar colocar essa doença autoimune em remissão e permitir a restauração do organismo.

Os pontos-chave dessa VIGILÂNCIA são:
  • Planejamento
  • Organização
  • Prevenção / Precaução
  • Análise de risco
São passos baseados naquilo que a Ciência pôde comprovar e do aprendizado coletivo e sua evolução ao longo dos anos dentro das comunidades celíacas (experiência da doença).
Mas precisamos nos atentar com a passagem do tempo: o que era uma dúvida em 2001 ou em 2011, talvez já não seja mais um problema em 2021.
A questão é que a Internet guarda tudo para sempre e sem critérios e muitas vezes celíacos recém diagnosticados se deparam com informações antigas sem saber que já “perderam a validade”.
Exemplo: Na década de 2.000 veio informação de grupos da Argentina de que havia glúten em pastas de dente. Algum tempo depois pudemos conferir que no Brasil não havia esse problema e nossas pastas eram isentas de glúten (durante esse tempo todo apenas 1 pasta de dente infantil – Ben 10 – trouxe o aviso de presença de glúten).
Porém, até hoje, ainda vemos essa dúvida surgir nos grupos sobre a segurança das pastas de dentes em decorrência dessa situação.






Chegamos no ponto principal desse texto: a

HIPERVIGILÂNCIA no contexto da DOENÇA CELÍACA

Aqui precisamos olhar para a forma como a pessoa celíaca REAGE e se COMPORTA frente às diversas situações do cotidiano onde ela se depara com o RISCO da contaminação por glúten ou seus traços.
O foco não é se a orientação está certa ou errada – o foco é na PESSOA e seu comportamento DISFUNCIONAL:
Se a pessoa celíaca está em sofrimento intenso e com prejuízos significativos em diferentes áreas da vida, com uma chance aumentada de depressão e de isolamento social, a linha tênue que separa a VIGILÂNCIA da HIPERVIGILÂNCIA foi rompida!
Esse comportamento disfuncional pode inclusive estar associado ao desenvolvimento de problemas físicos, se tornando “gatilho” para crises de enxaqueca e apresentação de sintomas gastrointestinais, dermatológicos e outros.
O sinal de alerta deve ser acionado assim que se percebe um aumento da ansiedade frente às situações do cotidiano e uma incapacidade de encontrar alternativas viáveis para a convivência em sociedade.
Nesse momento buscar ajuda psicoterápica é muito importante.
Há estudos apontando que a gestão eficiente da dieta sem glúten depende do desenvolvimento de ferramentas emocionais e de uma rede de apoio, mesmo que virtual:
  • Autorregulação - processo que gerencia as emoções para inibir impulsos e construir respostas adequadas para as diversas situações que geram estresse, ansiedade ou exigem tomadas de decisão.
  • Autoeficácia - a crença que o indivíduo tem sobre sua capacidade de realizar com sucesso determinada atividade.
  • Autocompaixão - maneira de enxergar com gentileza, preocupação, apoio e de forma amável a si próprio frente a algumas dificuldades ou erros cometidos.

A Saúde Celíaca depende dessa VIGILÂNCIA constante e da capacidade emocional de lidar responder aos desafios cotidianos.
Para aprendermos a lidar com a VIGILÂNCIA precisamos de tempo, boas orientações e um cuidado grande com nossa Saúde Mental.
Se estamos no papel de ser REDE DE APOIO e/ou de quem dá ORIENTAÇÕES sobre a precisamos nos preocupar em como o OUTRO entende e aplica o que ouve.
Saúde Mental também importa!



HIPERVIGILÂNCIA x Equívocos nas Orientações sobre VIGILÂNCIA CELÍACA


Como já falamos anteriormente muitas orientações para gerenciamento da #vidasemglúten vieram diretamente das Comunidades de Celíacos, com base em suas experiências ao lidarem com os desafios do cotidiano.
As orientações são feitas visando contemplar o maior número de celíacos possível, seja pela diversidade que existe tanto em variedade de sensibilidade aos vestígios de glúten quanto variedade e duração de sintomas.
E aqui vem a questão: antes do problema ser realmente de HIPERVIGILÂNCIA, talvez seja uma situação onde as orientações foram mal compreendidas ou estão equivocadas.
A diferença entre o remédio e o veneno é a dose!
1 – O celíaco decora a regra mas não entende seu fundamento e não sabe quando aplicar nas diversas situações do cotidiano.
A falta de conhecimento básico sobre como a doença celíaca é ativada e o que acontece no organismo, ou como ocorre a contaminação cruzada por glúten, dificulta a reflexão e ponderação para aplicação da regra.

 

2 – A regra não está baseada no que Ciência pode provar e por isso precisa ser vista com ponderação, pois talvez só tenha sentido ao ser aplicada por aqueles celíacos que têm outras condições de saúde associadas e precisam de mais cautela.
A aplicação generalizada da regra fora de um contexto específico acaba levando a comportamentos extremados.

 

3 – A regra foi orientada por uma pessoa que sofre com hipervigilância e não tem condições de fazer uma leitura equilibrada da realidade à sua volta.

 

4 – A regra é antiga e já deixou de fazer sentido, mas a informação continua disponível na internet como se fosse algo atual.

Sabemos que há diferenças dentro da comunidade celíaca sobre algumas orientações e isso traz grande insegurança para os recém-diagnosticados.
Também vemos diferenças de orientações em outros países entre as Comunidades e Associações de Celíacos e Comunidade Científica.
Esse cenário tem tendência a perdurar ainda por um tempo pelo número modesto de pesquisas feitas atualmente para responder às dúvidas dos Celíacos e também pelo fato “da Ciência não conseguir documentar a individualidade” (@scientia.europa).


Fontes:
  • CARLO CATASSI, ALESSIO FASANO ET AL. A prospective, double-blind, placebo-controlled trial to establish a safe gluten threshold for patients with celiac disease, The American Journal of Clinical Nutrition, Volume 85, Issue 1, January 2007, pp 160–166
  • ALVES, P. C. & RABELO, M. C., 1999. Significação e metáforas na experiência da enfermidade. In: Experiência de Doença e Narrativa, pp. 171-185, Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.

quarta-feira, 9 de março de 2022

ENTREVISTA: Mulheres que inspiram - Raquel Benati

 

Por LILIANE FARIAS, do perfil @oiceliaca no Instagram:

08 de março de 2022

Hoje é “comemorado” o dia da mulher!
Muita de nós receberam os parabéns, outras foram marcadas em algum belo post, ou então nem tiveram tempo algum para pensar a respeito.
A verdade é que, nesse dia deveríamos celebrar todas as mulheres inspiradoras que através da sua história abriram caminho para muitas de nós.
A Raquel Benati, do @rio_sem_gluten, é para mim uma dessas mulheres! Diagnosticada em um período onde quase não havia informação, ela dedicou muitos e muito tempo de sua vida para que outros Celíacos tivessem uma caminhada mais segura!
Eu a admiro muito e, estou imensamente feliz por ter aceito meu convite para dividir um pouco mais da sua história para nós!

Obrigada por tanto Raquel !

ENTREVISTA:

QUANDO E COMO TEVE O DIAGNÓSTICO DA DOENÇA CELÍACA?
Dezembro de 1994 confirmado por biópsia. Foram décadas de sintomas inespecíficos e busca por respostas. Só quando finalmente apresentei o quadro clássico de doença celíaca (diarreia crônica, gastrite e perda excessiva de peso) é que consegui o diagnóstico.

FOI MUITO DIFÍCIL EQUILIBRAR TUDO? QUAL FOI O MAIOR OBSTÁCULO A SUPERAR NESSE QUESITO?
Embora o acesso à informação fosse muito difícil naquela época, eu renasci. Foi um alívio ter o diagnóstico e encontrar respostas. Minha saúde voltou e a vida seguiu muito mais fácil. Não tive obstáculos, eu assumi a dieta 100%. Mas isso era simples pois não havia informações sobre os riscos de contaminação cruzada por glúten. O que havia era a orientação para tirar os alimentos proibidos da dieta. Ponto final. Nem havia a recomendação de buscar um nutricionista para acompanhamento... Só alguns anos mais tardes é que conheci o trabalho da Acelbra SP e comecei a ser "educada" sobre Doença Celíaca e contaminação cruzada.

COMO ERA A SOCIEDADE NO MOMENTO DO SEU DIAGNÓSTICO? MAIS, MENOS OU IGUALMENTE INFORMADA?
Zero informação. Embora já houvesse rotulagem de glúten nos produtos (lei de 1992), não existia Internet. As informações sobre Saúde só chegavam ao público em geral via TV/ Rádio, Revistas e Jornais impressos. Não havia informações sobre Restrições Alimentares. Glúten era uma palavra totalmente desconhecida, assim como doença celíaca. Ainda não se falava de maneira ampla sobre inclusão na década de 1990. Eu tinha uma doença considerada “rara”, mas já tinha o privilégio de ter uma lei de rotulagem feita para me proteger, fruto do trabalho de pais de Celíacos!

O QUE TE INSPIROU A COMEÇAR ESSE TRABALHO NAS REDES SOCIAIS?
A inspiração veio do trabalho voluntário que cresci vendo meus pais fazerem na comunidade onde viviam e da atuação das ACELBRAs (por isso fui uma das fundadoras da Acelbra do RJ).
Meus objetivos sempre foram o de facilitar o acesso à informação para que as próximas gerações de celíacos não precisem esperar décadas para conseguir um diagnóstico e organizar e disponibilizar gratuitamente informações relevantes sobre o cotidiano após o diagnóstico, acolhendo quem chega nessa #vidasemgluten.
Meu trabalho na Internet começou oficialmente no início dos anos 2000. De lá pra cá vi muitos celíacos que se propuseram a falar/ensinar/divulgar sobre Doença Celíaca nas redes sociais. Alguns fizeram isso por meses, outros por anos e tem um pequeno grupo que persiste até hoje. O trabalho de cada um deles é importante, pois com certeza impactou a vida de alguém, independentemente do tempo que puderam fazer isso. Mas ainda é pouco. Tem muito espaço vazio nas diversas redes sociais podendo ser ocupado com informações relevantes sobre Doença Celíaca e a #vidasemgluten. Que meu trabalho seja também inspiração pra quem está chegando e queira contribuir com essa missão de dar visibilidade à Doença Celíaca.

ONDE ENCONTROU MOTIVAÇÃO PARA ESTAR ATÉ HOJE SE EMPENHANDO EM INFORMAR A COMUNIDADE CELÍACA?
A motivação vem do fato da doença celíaca ainda ser invisível em nosso país e do sofrimento de muitas pessoas que ainda estão sem diagnóstico ou sem orientação correta após o diagnóstico.

A doença celíaca MATA quando como não diagnosticada ou não tratada. Ninguém mais deveria morrer ou ter câncer ou sofrer um aborto por causa de uma doença autoimune que não precisa de remédio para ser tratada. Esse cenário de desconhecimento e invisibilidade precisa mudar e somos nós, enquanto Celíacos que temos conhecimento, que precisamos fazer isso. Virou propósito de vida ver essa mudança acontecer. Eu sei que o que faço já ajudou e ajuda muita gente. Então eu sigo pois tenho o privilégio de poder fazer isso, de ter esse tempo.
Imagine o cenário: alguém morrer de fome em frente a uma geladeira cheia de comida, mas com a porta trancada. As instruções de como abrir a geladeira estão escritas numa língua que a pessoa não sabe ler.
É a mesma coisa em relação à Doença Celíaca e o seu tratamento.
Nessa analogia o Conhecimento é a chave que abre essa "geladeira". Só os que têm Conhecimento podem salvar quem está nessa situação.



O QUE DIRIA PARA AS PESSOAS QUE ASSIM COMO VOCÊ PRECISAM RESSIGNIFICAR A VIDA E APRENDER A LIDAR COM TANTA INFORMAÇÃO?
Pare e respire. Vá devagar. Você comia glúten até ontem. Primeiro você precisa entender o seu diagnóstico e aprender sobre ele: se informe, leia, estude, anote suas dúvidas e busque respostas. Faça as mudanças necessárias em sua vida por etapas. Nem sempre temos saúde física e emocional para lidar com tantas informações e decisões. Eu levei décadas para aprender o que hoje é despejado como uma avalanche em cima do recém diagnosticado ou de seus cuidadores. Pode ser desesperador e paralisante. Então no meio desse caos eu digo: pare, respire, se acalme e vá devagar, uma coisa de cada vez.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Enxaqueca e Doença Celíaca


Por Amy Ratner  (Beyond Celiac ORG)


Tradução: Google / Adaptação: Raquel Benati


Até 10 dias por mês, Claire Baker convive com enxaquecas. Ela conseguir se ver nos resultados de um novo estudo que descobriu que as enxaquecas são comuns em mulheres com doença celíaca.

“Os dias de enxaqueca realmente prejudicam minha capacidade de aproveitar a vida. Se não for medicada, posso perder fins de semana inteiros para ela”, observou Baker. “Felizmente eu encontrei um medicamento que trata o pior da dor para que eu possa continuar trabalhando, mas mesmo com a dor administrada, a enxaqueca praticamente me elimina.” Claire Baker, diretora sênior de comunicações da Beyond Celiac, foi diagnosticada com doença celíaca em 2010.

No geral, as pessoas com doença celíaca têm mais dores de cabeça, incluindo enxaquecas, do que as pessoas que não têm doença celíaca, de acordo com um novo estudo publicado na revista PLOS One que acrescenta evidências internacionais de sintomas neurológicos na doença celíaca.

Além disso, os sintomas gastrointestinais são mais comuns em pacientes com doença celíaca que têm enxaqueca do que em pacientes com doença celíaca que não têm, descobriram o estudo de pesquisadores da Universidade de Ciências Médicas de Teerã.

No estudo de 1.000 adultos com doença celíaca registrados no Shariati Hospital em Teerã que foram pareados com pessoas que não têm doença celíaca, a prevalência de enxaquecas foi quase o dobro naqueles com doença celíaca, 21% em comparação com 12%. A cefaleia também foi mais prevalente nos participantes do estudo com doença celíaca, 34% em comparação com 27%.

As mulheres com doença celíaca tinham cerca de quatro vezes mais probabilidade de ter enxaquecas do que os homens com doença celíaca, 80% em comparação com 19%. As enxaquecas eram frequentemente pulsantes, geralmente afetavam um lado da cabeça e eram acompanhadas de náuseas e / ou vômitos. No entanto, muitas vezes elas não tinham uma aura, que é um distúrbio sensorial que pode incluir flashes de luz, pontos cegos e outras alterações na visão ou formigamento nas mãos ou rosto, que está associado a enxaquecas.

O estudo também descobriu que o diabetes tipo 1 era menos comum em pessoas com doença celíaca que relataram enxaqueca em comparação com aqueles que relataram dores de cabeça que não eram enxaquecas.

Os participantes do estudo com doença celíaca relataram seus sintomas no momento do diagnóstico. Aqueles que afirmaram ter história de cefaleia foram avaliados com critérios internacionais de diagnóstico e classificação da cefaleia. Os sintomas gastrointestinais de pessoas com enxaquecas e dores de cabeça foram avaliados.

Estudos anteriores nos Estados Unidos e na Itália também encontraram um aumento na prevalência de enxaqueca em pessoas com doença celíaca, embora as porcentagens variem, escreveram os autores do estudo, observando que o tamanho da amostra era grande do que os outros estudos.

As próprias enxaquecas podem ter sintomas gastrointestinais, especificamente náuseas e vômitos, e o estudo observa que a doença celíaca deve ser descartada antes que esses sintomas sejam atribuídos apenas à enxaqueca.

“A avaliação da doença celíaca em pacientes com enxaqueca e esses sintomas gastrointestinais simultâneos parece razoável”, diz o estudo.

Os pesquisadores apontaram para um estudo de 2020 realizado por pesquisadores da Sheffield University, no Reino Unido, que encontrou algumas mudanças na ressonância magnética de pacientes com doença celíaca antes e depois da exposição ao glúten. 

“Realizar um estudo de imagem do cérebro em pacientes com doença celíaca com enxaqueca antes e depois do início de uma dieta sem glúten pode ser útil para compreender melhor a fisiopatologia da enxaqueca nos pacientes”, escreveram os autores.

A Beyond Celiac concedeu aos pesquisadores de Sheffield uma bolsa de investigação estabelecida de dois anos para expandir a investigação das manifestações neurológicas e neuropsicológicas da doença celíaca e distúrbios relacionados ao glúten. Esta pesquisa será uma continuação do trabalho anterior de Nigel Hoggard, MD, e Iain Croall, PhD.

A nova pesquisa examinará a relação entre os resultados de varreduras cerebrais de pacientes com distúrbios relacionados ao glúten e uma variedade de parâmetros diferentes. O estudo se concentrará na eficácia da dieta sem glúten no tratamento desses problemas neurológicos e investigará ainda mais os efeitos de longo prazo na função cognitiva, na gravidade dos sintomas de depressão e ansiedade e na qualidade de vida geral.

Espera-se que participem até 500 pacientes que passaram por varreduras cerebrais, o maior já estudado até agora. Os novos resultados ajudarão a corroborar evidências e aprofundar a compreensão clínica da neuropatologia da doença celíaca e distúrbios relacionados ao glúten.

As limitações do estudo da enxaqueca incluem a falta de medição de anticorpos contra antígenos encontrados no sistema nervoso central e o maior número de participantes do estudo que eram mulheres.


Você pode ler mais sobre o estudo aqui:

Prevalence of migraine in adults with celiac disease: A case control cross-sectional study

Mohammad M. Fanaeian, Nazanin Alibeik, Azita Ganji, Hafez Fakheri, Golnaz Ekhlasi, Bijan Shahbazkhani

Published: November 17, 2021 

https://doi.org/10.1371/journal.pone.0259502


Texto original:

www.beyondceliac.org

sábado, 27 de novembro de 2021

Os 10R da Doença Celíaca

 


Por Raquel Benati

A política dos 3R da Sustentabilidade (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) reune um conjunto de práticas cujo objetivo é minimizar o impacto ambiental causado pelo desperdício de materiais e produtos provenientes de recursos naturais e ganhou força e visibilidade a partir da ECO 92 e ds compromissos firmados na Agenda 21.

Anos mais tarde, com o objetivo de equilibrar o trato gastrintestinal por meio de cinco ações principais que formam um conjunto de práticas da Nutrição, conhecemos o Protocolo 5R (Remover, Reparar, Recolocar, Reinoculat, Reequilibrar).

Outras áreas também criaram seus próprios conjuntos de R, sintetizando ações para alcançar determinados objetivos.

Usando esses modelos como base, com o próposito de resumir o que tem sido usado com sucesso por grastroenterologistas, nutricionistas e psicílogos como conduta para o tratamento integral do paciente Celíaco é que criei esse conjunto de 10R da DOENÇA CELÍACA, divindo em 2 grandes áreas: Dieta sem Glúten e Vida sem glúten.

5R da DIETA SEM GLÚTEN






RETIRAR completamente o glúten da dieta, identificando as principais fontes desse conjunto de proteínas e cuidando dos riscos de contaminação cruzada por glúten em alimentos, utensílios e ambientes.

RESTRINGIR alguns grupos e tipos de alimentos na fase inicial do tratamento com dieta sem glúten para evitar o agravamento de situações digestivas secundárias à inflamação intestinal causada pela doença celíaca.

REPARAR a mucosa intestinal, garantindo REPOSIÇÃO adequada de nutrientes (minerais, vitaminas e hormônios) para correção das deficiências identificadas no momento do diagnóstico e RECUPERAÇÃO da saúde digestiva.

REINTRODUZIR gradualmente os alimentos que foram restringidos na fase inicial do tratamento com dieta sem glúten, observando as reações e fazendo adequações na rotina alimentar, garantindo variedade e densidade nutricional na dieta.

RESSIGNIFICAR sabores e texturas, criando novas memórias e experiências alimentares, adaptando antigas receitas e descobrindo novos ingredientes, buscando manter sempre o foco naquilo que é permitido e saudável dentro da dieta sem glúten.

5R da VIDA SEM GLÚTEN




REORGANIZAR a rotina, seja em relação ao ambiente doméstico ou ao ambiente fora do lar (trabalho/estudo/convivência com parentes e amigos), visando sempre garantir segurança alimentar e minimizando as situações de risco de ingestão voluntária ou involuntária de glúten.

REGULAR as emoções para que o autocuidado e autoeficácia sejam a base da vida sem glúten, tanto nas situações de rotina quanto nas situações inesperadas, trazendo flexibilidade e segurança nas decisões para garantia e proteção da Saúde.

RESPEITAR os seus limites físicos e mentais, avaliando a capacidade de lidar com situações de estresse emocional ou de estar em ambiente excludente, evitando exposição excessiva à esse tipo de experiência.

RECONSTRUIR propósitos de Vida e REVER os próprios conceitos relacionados à Inclusão, ampliando o olhar para além da restrição alimentar.

RENOVAR diariamente a crença na capacidade de RESISTIR às adversidades da vida sem glúten, mas também de se REERGUER quando falhar.


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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Doença Celíaca e alterações na Vesícula Biliar em Crianças



Tradução: Google / Adaptação: Raquel Benati


Frequência de cálculo biliar em crianças com Doença Celíaca


Gallstone Frequency in Children With Celiac Disease 

Mehmet Agin, Yusuf Kayar 

Pediatric Gastroenterology, Van Education and Research Hospital, Van, TUR. 

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7888360/


RESUMO

A doença celíaca (DC) é uma doença sistêmica autoimune crônica causada pelo mecanismo imunológico dirigido pelas células T, que é desencadeado pelo glúten em cereais como trigo, cevada e centeio em indivíduos com predisposição genética. O objetivo do presente estudo foi investigar a frequência de cálculos biliares em crianças com DC.


Métodos:

Um total de 120 pacientes com diagnóstico de Doença Celíaca e acompanhados pela clínica de gastroenterologia pediátrica do hospital e 100 crianças saudáveis ​​foram incluídos no estudo. 

A idade, sexo, hemograma, bioquímica e imagens de ultrassonografia abdominal dos pacientes foram comparados. Os casos com cálculos biliares foram avaliados em termos de parâmetros bioquímicos (lipídios séricos em jejum, fragilidade osmótica, eletroforese de hemoglobina e esfregaços periféricos, etc). 

Os casos com diagnóstico de doença hematológica ou metabólica foram excluídos do estudo. A sorologia para celíacos foi examinada em termos de diagnóstico de DC em casos que apresentavam cálculos biliares pela primeira vez.


Resultados:

A mediana da idade dos pacientes com Doença Celíaca incluídos no estudo foi de oito anos (5-12), e a mediana da idade do grupo controle foi de 10 anos (6-13). 

48% do Grupo Controle era do sexo feminino e 52% do masculino. Não foram detectadas diferenças significativas entre a distribuição de idade e sexo dos casos. Não houve diferenças entre o hemograma e os parâmetros bioquímicos. 

Cálculos biliares foram detectados em seis (5%) dos casos diagnosticados com Doença Celíaca e em três (3%) dos casos no grupo controle. 

Dois (2/160; 1,3%) dos pacientes encaminhados ao nosso serviço com diagnóstico de cálculo biliar foram diagnosticados com Doença Celíaca.

Conclusões: 

O diagnóstico precoce e o tratamento da Doença Celíaca são importantes para evitar o desenvolvimento de cálculos biliares porque uma dieta sem glúten corrige a enteropatia de forma significativa na DC. A Doença Celíca deve ser considerada em casos de cálculos biliares em crianças.

No entanto, estudos multicêntricos com maior participação projetados prospectivamente são necessários para revelar claramente a relação entre a formação de cálculos biliares e Doença Celíaca.


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Motilidade da vesícula biliar em crianças com Doença Celíaca 
antes e depois da dieta sem glúten


Gallbladder motility in children with celiac disease before andafter gluten-free diet

Subhamoy Dasa, Sadhna B. Lala, Vybhav Venkatesha, Anish Bhattacharyab, Akshay Saxenac, B.R ThapaaSatya Vati Ranad

Postgraduate Institute of Medical Education and Research, Chandigarh, India

Published online 5 February 2021 - Annals of Gastroenterology (2021) 35, 1-7

DOI: https://doi.org/10.20524/aog.2021.0593


RESUMO

Hipomotilidade da vesícula biliar foi relatada em adultos com doença celíaca (DC), mas não há literatura sobre essa disfunção em crianças celíacas. Nosso objetivo foi estudar a motilidade da vesícula biliar em crianças com DC, antes e depois de uma dieta isenta de glúten, usando ultrassonografia e cintilografia hepatobiliar.

Métodos: 

Crianças com Doença Celíaca recém-diagnosticadas foram inscritas e avaliadas quanto à fração de ejeção da vesícula biliar usando cintilografia e ultrassom. Aquelas com fração de ejeção reduzida na cintilografia inicial foram avaliadas novamente após 6 meses de dieta isenta de gluten rigorosa e os resultados foram comparados.

Resultados: 

Das 50 crianças com Doença Celíaca (idade média entre  2 a 9 anos, 54% meninos), 16% tinham uma baixa fração de ejeção da vesícula biliar na linha de base. Essas crianças tiveram um atraso significativamente maior no diagnóstico em comparação com aquelas com fração de ejeção normal. 

Uma melhoria significativa na fração de ejeção da vesícula biliar foi observada em cintilografia após dieta sem glúten. A fração de ejeção também melhorou significativamente quando avaliada por parâmetros da ultrassonografia após dieta sem glúten. 

O volume da vesícula biliar em jejum diminuiu com uma melhora significativa na porcentagem de alteração do volume pós-prandial em comparação com os valores basais pré-dieta isenta de glúten. Tempo de trânsito orocecal também aumentou em crianças com fração de ejeção reduzido.

Conclusões: 

A função da vesícula biliar está prejudicada em pelo menos 16% das crianças com Doença Celíaca no momento do diagnóstico e é reversível com dieta isenta de glúten rigorosa. A disfunção da vesícula biliar está significativamente associada a um diagnóstico tardio e pode fazer parte da dismotilidade gastrointestinal geral.