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terça-feira, 11 de outubro de 2022

Parei com o glúten e...fiquei intolerante! Será?

 



Rê Calixto - 09 de outubro de 2017
(Grupo "Estratégia Low Carb - Resistência à Insulina e Diabetes T2" - Facebook)

Há muitos relatos de pessoas que iniciam o estilo de vida low carb ou gluten free e após aquela primeira pizza e cerveja com os amigos começam a sentir sintomas relacionados ao glúten. Muitos profissionais dizem que a restrição foi a causa da “intolerância”, será mesmo?

Primeiro, importante salientar que o termo correto é sensibilidade ao glúten. Usamos muito a redução SGNC (sensibilidade ao glúten não celíaca).

Bom, alguns componentes que formam as proteínas do glúten, a gliadina e a glutenina, não podem ser digeridas pelo intestino de qualquer ser humano, embora algumas pessoas possam tolerar com segurança seu consumo. O curso natural das proteínas não digeridas seria a eliminação pelas fezes, mas isso não ocorre com esses componentes do glúten. Estima-se que, em 15% a 42% da população, esses componentes acabam entrando na circulação sanguínea pela parede intestinal.

Inicia-se então a produção de anticorpos, pois o corpo identifica essas proteínas como invasores, causando inflamação no local onde as proteínas vazaram. Os elementos químicos liberados pela inflamação causam aumento da permeabilidade intestinal. Entramos então em síndrome do vazamento intestinal ou síndrome do intestino permeável (leaky gut, em inglês). Mesmo na ausência de anticorpos específicos (que caracterizaria a doença celíaca), o contato dessas proteínas com outros órgãos ou tecidos causa danos, por causa desse mesmo processo inflamatório, desencadeado pelo sistema imunológico inato.

O intestino tem a maior massa de células imunológicas do corpo humano, são nossas células de defesa, altamente especializadas e que são substituídas rapidamente, a cada 72 horas. Essa camada protetora maravilhosa é destruída e canibalizada quando exposta a qualquer estresse severo. 

Então, se você for como a maior parte da população que apresenta risco aumentado de permeabilidade intestinal, e passar por um ou dois dos muitos eventos que podem causar vazamentos, o glúten não digerido inevitavelmente ultrapassará essa barreira e entrará no seu corpo pela corrente sanguínea. 

Junto com o glúten, o sangue absorverá outras proteínas, aditivos alimentares, toxinas, bactérias patógenas e até mesmo bactérias benéficas, que residiam na microbiota intestinal pacificamente, mas que se depositados em outros tecidos ou órgãos, causarão infecções ou reações autoimunes.

Então, já sabemos que o glúten pode ser um vilão mesmo para aquela porcentagem da população que não tem predisposição genética para a doença celíaca.


Mas antes dessa alimentação forte, natural, sem conservantes, corantes, industrializados, cheia de verduras, legumes, gorduras boas, algumas frutas.... Eu não tinha nenhum sintoma!


De fato, a percepção dos sintomas é diferente antes da mudança da alimentação. 

Há um princípio de Hans Style, chamado “estresse sem desconforto” (stress without distress, em inglês). 

É um mecanismo de defesa do corpo realizado pelo nosso hipotálamo. 

Exemplifico esse princípio sendo o glúten o agente estressor: 

Quando o biscoitinho, pãozinho, macarrãozinho de letrinha foi introduzido em nossa alimentação na infância, provavelmente tivemos uma reação forte e severa (cólicas, dor, choros, diarreia, distensão abdominal, febre inexplicável...). Após a exposição contínua e prolongada a esse estressor, iniciou-se um estágio de adaptação pois, nenhum organismo é capaz de manter-se em estado de alerta por períodos muito longos de tempo. Então os sintomas iniciais diminuem ou até desaparecem. Nos tornamos tolerantes aos sintomas. Mas, devemos ficar atentos porque o corpo entrará em exaustão (essa adaptação energética ao estressor é finita) e processos de doenças inflamatórias podem iniciar ou já estão em curso.

Essas informações nos levam a pensar que a sensibilidade ao glúten é anterior ao estilo de vida low carb ou gluten free, e que nosso corpo apenas tolerava os sintomas: havia estresse sem desconforto. 

Um estudo britânico relata casos de pacientes que foram diagnosticados com doença celíaca, que é uma doença genética, somente após fazerem semanas de dieta Atkins que também é livre de glúten. Já há uma estimativa de que 90 milhões de americanos sejam SGNC, isso equivaleria a quase 30% da população.

Se você sentiu melhora na sua saúde com o estilo de vida livre de glúten e teve sintomas quando o reintroduziu na dieta, consulte com um gastroenterologista atualizado sobre Desordens Relacionadas ao Glúten. Investigue 😉


Fontes:

https://bmcmedicine.biomedcentral.com/.../1741-7015-10-13

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1774636/

BRALY, J.; HOGGAN, R. O perigo do glúten: descubra como ele afeta a sua saúde e previna-se contra seus efeitos São Paulo: Alaúde, 2014.

FASANO, A. Dieta sem glúten: um guia essencial para uma vida saudável. São Paulo: Madras, 2015.

SELIE, H, Stress without distress. In: SERBAN, G. In: Psychopathology of human adaptation. New York: Springer Science, 1975. p 138-139.




domingo, 14 de junho de 2020

Distúrbios ginecológicos em mulheres com sensibilidade ao glúten / trigo não celíaca



Tradução: Google / Adaptação: Raquel Benati

Artigo original publicado: 07 de março de 2020

Maurizio Soresi, Salvatore Incandela, Pasquale Mansueto, Giuseppe Incandela, Francesco La Blasca, Francesca Fayer, Alberto D'Alcamo, Ada Maria Florena e Antonio Carroccio 

Digestive Diseases and Sciences (2020)

Resumo

A Sensibilidade ao Trigo Não Celíaca (STNC) apresenta frequentemente sintomas clínicos semelhantes à Síndrome do Intestino Irritável (SII), embora muitas manifestações extraintestinais também tenham sido atribuídas a ela. Até o momento, nenhum estudo avaliou a presença e frequência de sintomas ginecológicos na STNC.

Alvo
Avaliar a frequência de distúrbios ginecológicos em pacientes com STNC.

Pacientes e métodos
68 mulheres com STNC foram incluídas no estudo. Foi administrado um questionário investigando sintomas ginecológicos e cistite recorrente e as pacientes que relataram sintomas foram examinados por especialistas. Três grupos de controle foram selecionados: 52 pacientes com SII (sem relação com STNC), 56 pacientes com doença celíaca (DC) e 71 controles saudáveis.

Resultados
59% das pacientes com STNC apresentaram sintomas ginecológicos, uma frequência mais alta do que nos controles saudáveis, controles SII e controles DC.
 
Alterações do ciclo menstrual foram mais frequentes em pacientes com STNC do que em controles saudáveis ​​(26,5% vs 11,3); as pacientes com STNC sofreram vaginite recorrente (16%) e dispareunia (6%) significativamente mais frequentemente do que controles saudáveis. 

29% das pacientes com STNC relataram cistite recorrente, um achado maior do que nos grupos controle. 

Os exames microbiológicos foram negativos na maioria das pacientes com STNC e vaginite ou cistite recorrente. 

Durante o seguimento de 1 ano, 46% das pacientes com distúrbios menstruais e 36% com vaginite recorrente relataram resolução dos sintomas em uma dieta sem trigo.

Conclusões
Pacientes com STNC mostraram uma frequência significativamente maior de sintomas ginecológicos e cistite recorrente do que pacientes com SII.




quinta-feira, 11 de junho de 2020

Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca em Brasileiros


Tradução: Google / Adaptação: Raquel Benati

Sensibilidade ao glúten não celíaca autorreferida no Brasil: 
tradução, adaptação cultural e validação 
do questionário italiano


Yanna A. Gadelha de Mattos, Renata Puppin Zandonadi, Lenora Gandolfi, Riccardo Pratesi, Eduardo Yoshio Nakano e Claudia B. Pratesi

Nutrientes . 2019 abr; 11 (4): 781.
Publicado on-line 2019 - 4 de abril
Doi:10.3390/nu11040781

Resumo

Este estudo teve como objetivo traduzir, adaptar culturalmente, validar e aplicar um questionário à população brasileira sensível ao glúten não celíaca (SGNC). Também buscamos estimar a prevalência de sintomas que afetam a SGNC brasileira. A versão em português do Brasil do questionário SGNC foi desenvolvida de acordo com as diretrizes internacionais revisadas. 

Quinhentos e quarenta e três (543) participantes responderam ao questionário sobre SGNC. Avaliamos a reprodutibilidade e validade do questionário que apresenta medidas válidas de reprodutibilidade. Este é o primeiro questionário validado autorrelatado específico para pacientes com SGNC em português do Brasil e a primeira caracterização nacional de SGNC autorrelatada em adultos brasileiros. 

A maioria dos entrevistados era do sexo feminino (92,3%), e os principais sintomas intestinais relatados foram inchaço e dor abdominal. Os sintomas extraintestinais mais frequentes foram ausência de bem-estar, cansaço e depressão. 

Esperamos que o presente estudo forneça uma imagem de indivíduos brasileiros com suspeita de SGNC, o que poderia ajudar os profissionais de saúde e instituições governamentais a desenvolver estratégias eficazes para melhorar o tratamento e o diagnóstico da SGNC no Brasil. 

Discussão

Os primeiros estudos sobre SGNC foram publicados no final da década de 1970 e no início da década de 1980. No entanto, desde 2010, o número de estudos sobre SGNC aumentou, assim como as vendas de alimentos sem glúten, e espera-se que ambos continuem crescendo nos próximos anos. A ausência de biomarcadores dificulta o diagnóstico de SGNC. Consequentemente, o diagnóstico de SGNC baseia-se na resposta clínica à ingestão e abstinência de glúten, seguida de desafio ao glúten após a exclusão de Doença Celíaca e Alergia ao Trigo. Portanto, estudos de sintomas e distúrbios associados são críticos para fornecer uma melhor abordagem ao diagnóstico. Até onde sabemos, nosso estudo é a primeira caracterização nacional de adultos brasileiros com SGNC. Validamos o primeiro questionário autoaplicável específico para pacientes com SGNC em português do Brasil, com base no questionário em Volta et al.(2014).

Em nosso estudo, a maioria dos participantes era do sexo feminino e os principais sintomas intestinais eram inchaço e dor abdominal; os sintomas extraintestinais mais frequentes observados foram ausência de bem-estar, cansaço e depressão. Nossos resultados não diferem muito dos encontrados em estudos semelhantes realizados em outros países.

Embora os termos "glúten" e "sensibilidade ao glúten" tenham se tornado comuns, os distúrbios associados à ingestão de glúten permanecem pouco compreendidos. Os pacientes que sofrem de SGNC são provavelmente um grupo heterogêneo, composto por vários subgrupos, cada um caracterizado por diferentes patogênese, história clínica e evolução clínica. O único evento comum a todos os indivíduos que sofrem de SGNC é o aparecimento de uma gama variada de sinais e sintomas adversos após a ingestão de glúten. Pesquisas futuras são necessárias para identificar biomarcadores confiáveis ​​para o diagnóstico de SGNC, o que permitiria uma melhor definição de cada subgrupo.












Baixe o questionário em PDF (46 questões):
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6521116/bin/nutrients-11-00781-s001.pdf

Questionário sobre Sensibilidade ao Glúten Não-Celíaca

1. Idade (anos):
2. Gênero
( ) Masculino
( ) Feminino
3. Grau de Instrução:
( ) Ensino fundamental incompleto
( ) Ensino fundamental completo
( ) Ensino médio incompleto
( ) Ensino médio completo
( ) Ensino superior incompleto
( ) Ensino superior completo
( )Pós graduação incompleta
( )Pós graduação completa
4. Estado civil:
5. Renda mensal familiar:
6. Estado onde mora:

Questões 7–34: Sintomas e Sinais relativos à ingestão de glúten

O glúten é a combinação de dois grupos de proteínas: a gliadina e a glutenina, encontradas dentro de grãos de trigo, cevada e centeio e presente em alimentos como: pão, torrada, bolacha, biscoito, macarrão e outras massas, bolo, cerveja, pizza, salgadinhos, cachorro quente, hambúrguer, gérmen de trigo, triguilho, sêmola de trigo, cereais, barrinha de cereais.
7. Você sente cansaço físico associado à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
8. Você se sente indisposto ou com mal-estar quando ingere glúten?
( )Sim
( )Não
9. Você teve perda de peso associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
Quantos quilos perdeu?
___________ Kg (número)
10. Você tem aftas de repetição (feridas na boca) associadas à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
11. Você sente queimação subindo da barriga para o peito ou para a garganta (azia/pirose)
quando ingere glúten?
( ) Sim
( ) Não
12. Você sente o ácido subindo da barriga para o peito ou para a garganta (regurgitação ou refluxo
ácido) quando ingere glúten?
( ) Sim
( ) Não
13. Você tem dor de estômago associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
14. Você tem náuseas ou enjôos associados à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
15. Você tem aerofagia (sensação de engolir muito ar, eventualmente com arrotos) quando ingere
glúten?
( ) Sim
( ) Não
16. Você tem distensão abdominal (barriga inchada, estufada) associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
17. Você tem dor na barriga associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
18. Diarreia
( ) Sim
( ) Não
Número de evacuações por dia: ___________
19. Você tem constipação (intestino preso, fezes endurecidas e dificuldade para evacuar)
associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
20. Você tem alternância de hábito intestinal (intestino às vezes preso, às vezes solto) associada à
ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
21. Você tem ou já teve anemia associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
22. Você tem dor de cabeça associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
23. Você tem dormências associadas à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
24. Você tem sensação de cabeça oca ou raciocínio lento associado à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
25. Você tem dor nos músculos associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
26. Você tem dor nas juntas (articulações) associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
27. Você se sente desanimado ou deprimido quando ingere glúten?
( ) Sim
( ) Não
28. Você tem ansiedade associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
29. Você tem asma associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
30. Você tem rinite associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
31. Você tem rash cutâneo (lesões na pele como bolhas, manchas, caroços, vermelhidão etc)
associado à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
32. Você tem alergias na pele (dermatite) associada à ingestão de glúten?
( ) Sim
( ) Não
33. Você tem algum outro sintoma associado à ingestão de glúten?
Especifique:
34. Qual é a frequência dos sintomas em relação à ingestão do gluten:
( ) Sempre
( ) Frequentemente
( ) Ocasionalmente
35. Quanto tempo depois da ingestão de glúten os sintomas aparecem?
( ) Em 6 horas
( ) Entre 6 e 24 horas
( ) Após 24 horas
36. Os sintomas surgiram quanto tempo antes da hipersensibilidade ao gluten ser detectada?
( ) 1 mês
( ) 6 meses
( ) > 6 meses

Questões 37–42: Distúrbios Associados

37. Você tem algum transtorno alimentar, como por exemplo anorexia (aversão a se alimentar),
bulimia (compulsão a ingerir alimentos, seguida de culpa, com vômito ou exercício após), ortorexia (compulsão por ingerir somente alimentos “saudáveis”) ou outros?
( ) Sim
( ) Não
( ) Não sei
Qual?
_________________________________________________________________
38. Você tem Síndrome do Intestino Irritável (dor ou desconforto abdominal recorrente pelo
menos 3 dias/mês, nos últimos 3 meses, que melhora com a defecação e/ou se associa com
mudança na frequência das evacuações ou com mudança no formato (aparência) das fezes?
( ) sim
( ) não
( ) não sei
39. Você tem alguma outra intolerância alimentar (desconforto digestivo quando ingere corantes,
conservantes, lactose, chocolate, vinho...)?
( ) Sim
( ) Não
Qual?
_________________________________________________________________
40. Você tem alguma alergia?
( ) Sim
( ) Não
Qual?________________________________________________________________
41. Você tem alguma doença psiquiátrica (depressão, ansiedade, transtorno bipolar,
esquizofrenia...)?
( ) Sim
( ) Não
Qual?_________________________________________________________________
42. Você tem alguma doença autoimune (como lupus, artrite reumatoide, Sjogren...)?
( ) Sim
4
( ) Não
( ) não sei
Qual? _________________________________________________________________
43. Você tem história de Doença Celíaca na família?
( ) Sim
( ) Não
( ) Não sei
Em quem? ________________________________________________________________
44. Quem foi o primeiro a suspeitar que você tinha Sensibilidade ao glúten?
( ) Você mesmo
( ) Algum amigo
( ) O farmacêutico
( ) Um médico (clínico ou de familia)
( ) Um gastroenterogista
( ) Um homeopata
( ) Outro _______________________________________________________________
45. Você tem algum teste positivo para doença celíaca?
( ) sim
( ) não
( ) não sei
Se sim, qual?
46. Você tem algum teste positivo para alergia ao trigo?
( ) sim
( )não
( ) não sei
Se sim, qual?



terça-feira, 9 de junho de 2020

TRIGO e seus componentes - nem sempre o vilão é o Glúten



Figura 1-  Gatilhos conhecidos da SGNC: O glúten é o gatilho primário, mas não é o único gatilho dessa síndrome, porque outras proteínas do trigo, como as ATIs do trigo, demonstraram provocar uma resposta imune inata que leva à SGNC. Além disso, muitos pacientes com  SGNC exibem uma hipersensibilidade alimentar provocada por FODMAPs. Os sintomas gastrointestinais funcionais observados em pacientes com SGNC e com outros distúrbios, incluindo Síndrome do Intestino Irritável, também podem estar parcialmente relacionados a aditivos alimentares, como glutamatos, benzoatos, sulfitos e nitratos, que são adicionados a muitos produtos comerciais por vários motivos (por exemplo, para melhorar o sabor, a cor e a função conservadora). 

FODMAP (oligo-, di- e monossacárideos e póliois fermentáveis); 
SII - síndrome do intestino irritável; 
SGNC - Sensibilidade  ao glúten não celíaca; 
ATIs - inibidores da amilase tripsina.
(Non-celiac Gluten Sensitivity: Questions Still to Be Answered Despite Increasing Awareness - Volta et al - 2013).


Riscos à saúde associados ao consumo de trigo e glúten em indivíduos suscetíveis

Gilberto Igrejas, Tatsuya M. Ikeda, Carlos Guzmán
DOI: 10.1007 / 978-3-030-34163-3_20 

Tradução: Google / Adaptação: Raquel Benati
(Recorte de uma parte do artigo)


Sensibilidade ao glúten ou ao trigo não-celíaca

Nos últimos anos, foi identificado o terceiro grupo de pessoas que apresentam sintomas após consumir produtos de trigo, mas que não são diagnosticadas com Doença Celíaca (DC) e nem Alergia ao Trigo (AT). Esses indivíduos podem apresentar sintomas gastrointestinais semelhantes aos da síndrome do intestino irritável (SII) e que melhoram com a  transição para uma dieta isenta de glúten (DIG).

Esse grupo é referido como Sensível ao glúten não-celíaco (SGNC) ou, mais recentemente, Sensível ao trigo não-celíaco (STNC). Ludvigsson et al. (2013) definiram a SGNC como “uma ou mais de uma variedade de manifestações imunológicas, morfológicas ou sintomáticas que são precipitadas pela ingestão de glúten em indivíduos nos quais a DC foi excluída”. Apesar da palavra 'glúten' na definição atual de SGNC, ainda não se tem confirmação de que o glúten é a principal causa de sintomas nesse grupo de pessoas ou mesmo se o trigo é a causa direta.

Etiologia e prevalência da STNC

A STNC é uma condição na qual a ingestão de trigo leva a manifestações morfológicas ou sintomáticas, apesar da ausência de DC. Os pacientes com STNC podem mostrar sinais de uma resposta imune inata ativada, algumas elevações nos anticorpos antitransglutaminase, antiendomísio, antigliadina desamidada e aumento da permeabilidade da mucosa, todos os quais são característicos da DC, mas sem a enteropatia associada. Embora até 35% da população possa afirmar que se sente melhor ao evitar glúten e / ou trigo, a porcentagem de indivíduos que sofrem de STNC é provavelmente muito menor, mas isso depende da região de observação (DiGiacomo et al. 2013; Rubio -Tapia et al. 2012). 

Atualmente, é impossível estimar com segurança o número de pessoas que sofrem de STNC / SGNC. Embora se espere que isso seja maior que o número de pessoas com DC, números precisos são escassos e variam de 0,5% a 10% da população, mas a estimativa mais provável atual é de 2 a 5% (Ludvigsson et al. 2013).


Substâncias causando STNC 

O glúten e os oligo-, di-, monossacarídeos e polióis fermentáveis ​​(FODMAPs) são amplamente discutidos como agentes causadores de STNC (Barrett e Gibson 2012; Skodje et al. 2018). Vários estudos com produtos de trigo, não apenas com glúten, foram relatados em que as pessoas também foram expostas a outros componentes do trigo, como LTPs e ATIs (Biesiekierski et al. 2013; Vazquez – Roque et al. 2013). Até o momento, não foram realizados estudos para determinar como os pacientes diagnosticados com STNC reagem a componentes individuais ou suas combinações. Embora Kamut, um tipo antigo de trigo tetraplóide, tenha causado menos sintomas em pacientes com SII em comparação com trigos modernos (Sofi et al. 2014), uma revisão crítica recente concluiu que são necessários mais estudos usando amostras de grãos bem definidas e cultivadas sob as mesmas condições para confirmar essa relação (Shewry 2018). 

Os FODMAPs estão presentes em todos os trigos, mas também em frutas e vegetais, incluindo leguminosas (Biesiekierski et al. 2011). Considerando a grande sobreposição entre os sintomas associados à Síndrome do Intestino Irritável e à STNC, os produtos à base de trigo estão sendo cada vez mais listados como alimentos a serem evitados, pois contém carboidratos fermentáveis. Biesiekierski et al. (2011) observaram que o glúten específicamente causou sintomas em um estudo, mas mostraram que os FODMAPs foram a causa em um estudo subsequente (Biesiekierski et al. 2013). Resultados semelhantes foram relatados por Skodje et al. (2018). No entanto, a quantidade dos frutanos, os principais FODMAPs do trigo, nos alimentos à base de trigo, são baixos e bem abaixo dos níveis que causariam sofrimento abdominal em indivíduos saudáveis normais (Brouns et al. 2017).


Diagnóstico e soluções da STNC

O diagnóstico da STNC / SGNC é difícil porque as pessoas relatam sintomas que podem indicar DC, bem como sintomas que ocorrem com na Alergia ao Trigo. Frequentemente estes os sintomas são autodiagnosticados e também se sobrepõem a um conjunto de sintomas definidos como SII (veja a Fig. 1). Caio et al. (2014) e Uhde et al. (2016) mostraram que pessoas que sofrem de sintomas de STNC melhoram significativamente com uma dieta livre de trigo / glúten. No entanto, ainda faltam biomarcadores bem definidos e um teste de diagnóstico clinicamente validado para STNC / SGNC. Revisões excelentes comparando aspectos da DC  e STNC / SGNC estão disponíveis (Volta et al. 2013; Schuppan et al. 2015; Scherf et al. 2016; Leonard et al. 2017; Leonard et al. 2017; Catassi et al. 2017).



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Ataxia de Glúten



A ataxia do glúten é uma condição neurológica 
caracterizada pela perda de equilíbrio e coordenação.


Por Christine Boyd



Tradução: Google / Adaptação: Raquel Benati


Não muito tempo depois do diagnóstico, Sarah Bosse percebeu que seu caso de doença celíaca não era típico. Bosse juntou-se a um grupo de apoio para recém-diagnosticados celíacos e ficou surpresa com o que viu nas primeiras reuniões.

“Eles estavam trabalhando em empregos de tempo integral, tinham famílias e saíam à noite. Sem diminuir a gravidade de seus sintomas e experiências, mas eles tinham uma vida muito mais normal”.

Na verdade, Bosse esperava que eles estivessem tão doentes quanto ela.

A jovem de 26 anos de Raleigh, Carolina do Norte, consegue rever sua história e perceber seus sintomas de doença celíaca até o ensino fundamental, quando passou inúmeras horas no consultório da enfermeira, mordiscando salgadinhos por causa de diarreia, náusea e cólicas estomacais.

“Olhando para trás, é tão irônico. Esses salgadinhos estavam me deixando pior”, lembra Bosse. Seus sintomas continuaram em sua adolescência e foram atribuídos à ansiedade e à síndrome do intestino irritável. O inchaço, diarreia e cólicas foram uma parte tão constante de sua juventude que, quando ela olha para fotos de infância, ela pode ver o desconforto e o constrangimento em seu rosto.

"Eu não percebi isso na época, mas minha vida tem sido sobre como gerenciar meus problemas de estômago", diz ela.

Pouco depois de terminar a faculdade, Bosse começou a experimentar novos sintomas assustadores. Ela estava cada vez mais tonta e desorientada, frequentemente tropeçando ao virar uma esquina ou mudar de direção. Ela até caía de uma cadeira ou de sua própria cama às vezes, culpando-a pelo desalinho até que o equilíbrio não era mais sua única reclamação. Sua cabeça começou a ficar confusa e enevoada e ela teve dificuldade em se concentrar, comparando-a a um caso extremo de TDAH (Transtorno do défict de atenção e hiperatividade). Ela também começou a ter problemas incomuns com sua visão, vendo flashes brilhantes e percebendo que seus olhos pareciam saltar, em vez de repousar sobre o que ela estava olhando.

“Eu poderia estar no supermercado, olhando para uma demonstração de ketchup. Eu tentava alcançar um, mas meus olhos não ficavam parados para que eu pudesse pegá-lo ”, diz ela.

Antes que Bosse pudesse ver um especialista, um sintoma muito mais assustador aconteceu. Ela estava dormindo nas primeiras horas da manhã, quando acordou assustada, ofegando. Ela se sentiu paralisada, como se seu corpo tivesse esquecido como respirar. Também incapaz de engolir, ela estava engasgando com sua própria saliva. Petrificada, ela conseguiu pedir ajuda e foi levada às pressas para a sala de emergência.

Preocupada com a possibilidade de ter esclerose múltipla, Bosse passou por uma série de ressonâncias magnéticas cerebrais no hospital. Quando os resultados exames deram negativos, ela foi testada para a doença de Lyme, lúpus, artrite reumatóide e inúmeras outras condições ao longo das próximas semanas. Os resultados foram normais e os médicos não tiveram uma resposta para ela.

Então um amigo próximo foi diagnosticado com doença celíaca e Bosse se perguntou se isso poderia ajudar a explicar seus sintomas de digestão. Ela pediu para ser testada e apenas alguns dias depois, o diagnóstico foi pregado. Poucas semanas depois de comer sem glúten, seus problemas de estômago estavam se revirando, mas seus problemas de equilíbrio estavam piores do que nunca.

“Eu não conseguia andar perto de uma linha reta. Naquela época, eu passava a maior parte do meu dia em uma cadeira de rodas. Eu tive que parar de trabalhar fora de minha casa. Foi difícil apreciar o fato de que meu estômago não estava doendo tanto porque eu estava em casa ”, diz ela.

Perdendo a esperança, Bosse foi hospitalizada por depressão. Enquanto estava lá, um palpite de um de seus médicos sugeriu que ela poderia ter uma condição pouco conhecida chamada ataxia de glúten.

 Um chamado controverso

A ataxia do glúten é uma condição neurológica caracterizada pela perda de equilíbrio e coordenação. No entanto, também pode afetar os dedos, mãos, braços, pernas, fala e até movimentos dos olhos. Os sintomas típicos incluem dificuldade em deambular ou andar com uma marcha ampla, quedas frequentes, dificuldade em julgar distâncias (profundidade) ou posição, distúrbios visuais e tremor.

Especialistas acreditam que a ataxia do glúten pode ser uma das formas de desordens relacionadas ao glúten, um amplo espectro de distúrbios marcados por uma resposta imunológica anormal ao glúten.

Diferentes órgãos podem ser afetados por diferentes tipos de sensibilidade ao glúten. Na doença celíaca, às vezes chamada de enteropatia sensível ao glúten, o intestino delgado é afetado. Na dermatite herpetiforme, a pele é direcionada, resultando em uma erupção cutânea com comichão. Com a ataxia do glúten, o dano ocorre no cerebelo, o centro do equilíbrio do cérebro que controla a coordenação e movimentos complexos, como andar, falar e engolir.

As células de Purkinje no cerebelo, chave na manutenção do equilíbrio, são consideradas perdidas na ataxia do glúten.

"É melhor descrever a ataxia do glúten usando o termo sensibilidade ao glúten, porque isso nos tira do equívoco de que você deva ter Doença Celíaca para ter qualquer uma dessas manifestações diversas", diz Marios Hadjivassiliou, MD, neurologista do Royal Hallamshire Hospital, em Sheffield, Inglaterra.

Hadjivassiliou descreveu pela primeira vez a ataxia do glúten na década de 1990. Depois de ver um número de pacientes com problemas inexplicáveis ​​de equilíbrio e coordenação, ele começou a testá-los sistematicamente quanto à sensibilidade ao glúten usando anticorpos antigliadina, que apontam para uma resposta imune aumentada ao glúten, mas não necessariamente para um diagnóstico de doença celíaca. Hadjivassiliou encontrou uma prevalência muito alta de anticorpos em pacientes com ataxia, cunhando a condição, ataxia de glúten.

Mas nem todos os neurologistas concordam que exista "ataxia de glúten". Embora vários estudos apóiem ​​os achados de Hadjivassiliou, pelo menos um pequeno estudo, publicado na Neurology em 2000, não conseguiu encontrar uma ligação entre os anticorpos antigliadina e a ataxia cerebelar. Nenhum dos 32 pacientes no estudo testou positivo para os anticorpos.

Mas este estudo é apenas parte do problema. Lançar mais dúvidas sobre a condição é o chamado critério de diagnóstico "soft". A ataxia de glúten é atualmente diagnosticada quando os testes sugerem a que a doença celíaca e outras causas de ataxia foram descartadas. (É aconselhável fazer biópsia do intestino delgado em pacientes com antigliadina e antitransglutaminase positivos). É um diagnóstico de exclusão.

"Há uma evidência bastante boa do motivo de celíacos apresentarem problemas neurológicos como ataxia", diz Joseph Murray, MD, um gastroenterologista e especialista em doença celíaca na Mayo Clinic. Deficiências vitamínicas ou um fenômeno chamado mimetismo molecular poderiam ser os culpados. No mimetismo molecular, algo no cérebro pode parecer bastante com o glúten que os anticorpos direcionados ao intestino delgado reagem de forma cruzada contra parte do cérebro.

“A conclusão é que quando a doença celíaca e a ataxia do glúten ocorrem juntas, a ataxia do glúten pode ser um diagnóstico robusto. Mas quando a ataxia do glúten ocorre por conta própria, temos menos certeza do diagnóstico ”, diz Murray.

Uma nova ferramenta de rastreamento pode ajudar em breve. Hadjivassiliou e sua equipe identificaram recentemente um anticorpo, a transglutaminase TG6, que pode ser um marcador melhor para a ataxia do glúten. O TG6 é semelhante ao anticorpo TG2, detectado na triagem de tTG amplamente utilizada para doença celíaca - mas o TG6 é primariamente expresso no cérebro. Embora promissor, um teste para TG6 ainda não está pronto para uso clínico.

Falta de consciência


Infelizmente, a familiaridade com a ataxia do glúten na comunidade médica tende a ser a exceção, não a regra, diz Murray.

A experiência de Bosse ecoa isso. "Não tenho certeza se muitos dos meus médicos entendem quando digo que tenho ataxia de glúten", diz ela. "Se eu tiver que ir ao hospital, não tenho certeza se a equipe médica saberá do que estou falando."

Bob Hunter, 63, um agente de patentes do Havaí, também tem ataxia de glúten. Sua esposa notou pela primeira vez em 2004 que suas mãos tremiam quando ele as movia, como se estivesse pegando sua xícara de café.

“Se você quer pegar algo, não pensa em todas as coisas necessárias para que isso aconteça. Você apenas fecha a mão e faz. Mas se essa parte do cérebro não está funcionando bem, você tem que estar mais consciente de todos os músculos necessários para realizar a tarefa ”, diz Hunter.

Como Bosse, Hunter experimentou nevoeiro cerebral e problemas com o equilíbrio, machucando os dedos dos pés e batendo os ombros nas estruturas das portas enquanto tentava andar desajeitadamente pela casa. Ele parecia bêbado. Envergonhado, ele foi rápido em tranquilizar aqueles ao redor dele que não era o caso.

Hunter viajou de sua casa no Havaí para a Mayo Clinic em Minnesota antes de ser diagnosticado com doença celíaca e ataxia de glúten.

Carolyn Davison, 39 anos, mãe de dois filhos de New South Wales, na Austrália, viajou para o outro lado do mundo em busca de seu diagnóstico. Davison havia sido hospitalizada meia dúzia de vezes depois de crises assustadoras de paralisia e dormência nas pernas. Quando seus médicos calcularam quanto tempo ela poderia andar antes de desmaiar ou perder o equilíbrio, o melhor que pôde fazer foi quatro minutos. Ela experimentou outros sintomas neurológicos estranhos também. Ela tentava escrever e não conseguia, ela se perdia no supermercado e esquecia o que estava falando no meio da frase. Em pouco tempo, Davison não podia trabalhar, desistindo de seu trabalho como terapeuta especializada em crianças com deficiências de desenvolvimento e autismo. Incapaz de usar escadas, ela se mudou para uma casa de um andar.

Na longa lista de condições para as quais a Davison foi testada, incluindo a síndrome de Guillain-Barré e a esclerose múltipla, foi realizado um exame de sangue para a doença celíaca. Seus anticorpos foram positivos, mas na biópsia não foi possível encontrar nada. Embora o neurologista de Davison soubesse que em alguns celíacos pode haver sintomas neurológicos, sem um caso claro de doença celíaca, ele estava sem ideias.

Enquanto isso, Davison começou a questionar sua sanidade. Seus médicos estavam desistindo dela, mas seus sintomas estavam piorando. Como Bosse, ela começou a experimentar episódios assustadores em que não conseguia respirar e não conseguia engolir, sufocando-se em sua própria saliva. Aterrorizada, Davison assumiu o assunto em suas próprias mãos. Ela entrou na internet e encontrou a pesquisa de Hadjivassiliou. Ela mostrou ao seu neurologista, que a incentivou a viajar pelo mundo para vê-lo.

Armada com fichários cheios de seus registros médicos, Davison foi para a Inglaterra e se encontrou com Hadjivassiliou. Ele correu apenas um teste adicional, a triagem genética para a doença celíaca. O teste não pode diagnosticar a doença celíaca, mas alguns especialistas acreditam que, quando positivo, pode sugerir uma predisposição genética para apresentar a patologia. Para Davison, o teste genético ajudou a fornecer ainda mais evidências de que ela é sensível ao glúten e depois de três longos e difíceis anos, ela foi finalmente diagnosticada com ataxia de glúten.

Ajuda através da dieta


O diagnóstico tardio de ataxia de glúten é a norma, diz Hadjivassiliou, particularmente para pacientes como Davison, que não têm doença celíaca ou sintomas gastrointestinais. Os médicos só pensam em investigar doença celíaca apenas se os sintomas gastrointestinais estiverem presentes e é improvável que pensem em problemas com o glúten no contexto da ataxia, diz Hadjivassiliou. Mas sua pesquisa, publicada em 2003, descobriu que até 40% dos pacientes com ataxia inexplicada têm problemas com o glúten. Hadjivassiliou recomenda que os neurologistas examinem rotineiramente os pacientes com ataxia inexplicada para doença celíaca.

Aqueles com ataxia de glúten não têm tempo a perder, ele adverte. A dieta livre de glúten - a base do tratamento da ataxia do glúten - pode resultar em uma estabilização dos sintomas. Mas muitas vezes, danos significativos já foram feitos.

O sistema neurológico tende a cicatrizar muito mal e muito lentamente, diz Murray. Ao contrário do revestimento do intestino delgado, as células de Purkinje do cerebelo não têm capacidade de regeneração, explica Hadjivassiliou. Uma vez que a ataxia esteja bem estabelecida, o que pode acontecer em apenas seis meses, é raro haver uma recuperação completa.

O dano extenso ajudou a explicar por que, mesmo depois de ficar sem glúten, Bosse continuou a ter sintomas debilitantes. Sua ataxia estava avançada. Não é incomum estar em cadeira de rodas no momento do diagnóstico, diz Murray.

No entanto, a perspectiva não é sombria. Além da intervenção dietética, a terapia física e ocupacional pode fazer uma grande diferença.

Como ex-assistente de terapeuta ocupacional, Bosse pratica muitas das habilidades que costumava ensinar. Ela passa horas todo dia 'treinando' seu cérebro e músculos para realizar tarefas diárias. Fisioterapia e exercícios regulares na academia ajudam a fortalecer os músculos enfraquecidos.

Como Bosse, Hunter iniciou um rigoroso programa de fisioterapia logo após seu diagnóstico. Ela também cortou o álcool, o que pode exacerbar os sintomas de ataxia. Tendo lido sobre os vários atributos de saúde da vitamina D, incluindo possíveis benefícios na esclerose múltipla e outras condições autoimunes e neurológicas, Davison começou a suplementar sua dieta com vitamina D. Embora Davison ache que melhore os sintomas, particularmente no inverno, os especialistas ainda não endossam a suplementação de vitamina D na ataxia de glúten. A doença celíaca pode causar má absorção nutricional (de cobre e vitaminas B6, B12 e E, por exemplo) que pode afetar o equilíbrio, mas a ataxia de glúten por si só não é considerada causadora de deficiências de vitaminas.

A evidência esmagadora é que a ataxia do glúten é imunomediada, dizem os especialistas. Hadjivassiliou e sua equipe estão atualmente estudando como a condição danifica as células neurais, com a esperança de um dia desenvolver melhores terapias direcionadas. Por enquanto, é mais importante para os pacientes repetir exames de sangue, geralmente após seis meses de tratamento com a dieta sem glúten, para garantir a eliminação de todos os anticorpos. Os sintomas podem estabilizar e melhorar quando os anticorpos desaparecem.

É uma recuperação lenta

Graças ao seu trabalho árduo, Bosse teve grandes ganhos desde que ficou sem glúten no ano passado. Sua doença celíaca está sob controle e seus sintomas de ataxia melhoraram significativamente. Felizmente, ela não experimentou nenhum episódio subsequente em precisar se esforçar para respirar ou engolir. Embora ela ainda precise de sua cadeira de rodas a maior parte do dia, muitas vezes é a dor em queimação causada pela neuropatia periférica, outra complicação neurológica da doença celíaca, que a mantém fora de seus pés. Bosse recentemente pegou sua flauta e flautim novamente, seus hobbies favoritos, e encontrou um emprego em tempo parcial que ela pode realizar em casa.

Mas a recuperação é lenta - e parte de sua estratégia de cura é simplesmente desacelerar.

“Eu tenho que estar disposta a desacelerar e trabalhar com o meu corpo, especialmente nos dias em que estou tendo mais problemas. Quando minhas emoções se esgotam, a ataxia piora. Eu tenho que me acalmar e me mover mais devagar, me concentrando em tudo que estou fazendo ”, diz ela.

Davison também tem que fazer uma coisa de cada vez. Não há multitarefa. Após dois anos de dieta sem glúten, sua coordenação melhorou substancialmente e ela é capaz de andar e fazer exercícios de ioga suaves. Mas ela tem que andar sozinha.

“Meu principal problema hoje é fadiga. Eu não estou trabalhando ainda, mas eu comecei serviço voluntario várias manhãs por semana no meu campo. As tardes eu passo na cama." Embora às vezes seja uma luta permanecer positiva, olhando para trás, ela pode ver uma melhora constante em geral.

Vigilância Dietética

Se Bosse tinha dúvidas sobre ter ataxia de glúten, elas foram colocadas para escanteio na primeira vez em que ela acidentalmente comeu glúten. Sua colega de quarto havia comprado um pedaço de pão com glúten e, confundindo-o com pão sem glúten, Bosse o comeu. Dentro de uma hora, ela foi vencida por uma diarréia que durou duas semanas. Então a dor nas articulações se instalou. Tontura, confusão e problemas de visão a mantiveram acamada por mais algumas semanas.

Com este nível de sensibilidade, um deslizamento na dieta é um grande revés. A última vez que aconteceu para Bosse foi no casamento do irmão dela. Ela comeu um pedaço de rosbife e ficou doente 30 minutos depois. Ela acha que a faca usada para cortar a carne pode ter sido usada para cortar pãezinhos. Três meses depois, ela ainda sofria de uma exacerbação dos sintomas de ataxia. Eventualmente, os sintomas se estabilizam, nivelando-se em um ponto que ela descreve como “um pouco mais abaixo” do que onde ela estava antes.

"Toda vez que sou exposta ao glúten, perco um pouco de algo que costumava ser capaz de fazer, provavelmente permanentemente", diz ela.

É difícil, se não impossível, se recuperar completamente de um incidente com glúten, concorda Davison. “Eu não posso correr nenhum risco com comida. As consequências para mim são muito mais graves do que para muitos outros em dieta sem glúten. ”

Para seu próprio bem-estar, Bosse não come em restaurantes. Ela leva uma marmita quando sai com os amigos. Ela não come comida que os outros preparam. Em vez disso, ela convida amigos para sua casa, onde eles cozinham usando seus utensílios e ingredientes.

"Embora todos os celíacos precisem estar atentos à sua dieta, eu realmente aconselho aos pacientes que também têm ataxia de glúten de que não podem correr riscos", diz Murray. "Eles têm que proteger o organismo tanto quanto possível."


Texto Original

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Degraus na Jornada sem glúten





10 Passos em direção à Saúde


Raquel Benati 
​(Texto escrito originalmente para meu Web Aplicativo Vida sem Glúten)

A vida sem glúten ainda é novidade para muitas pessoas. O mundo conhece pouco do universo sem glúten. Por isso muitas pessoas se sentem isoladas, diferentes, deslocadas em qualquer situação. Para enfrentar o desafio e conseguir sair do lugar apresentamos aqui 10 etapas ou degraus dessa jornada sem glúten a serem vencidos.

1 - Reconheça que você tem um problema com o  glúten / trigo 

Quem precisa ficar longe do glúten SABE que essa proteína não é bem  vinda em seu organismo. Mas é preciso ASSUMIR isso internamente para que seja possível desenvolver estratégias eficazes em conseguir viver longe do glúten. 

Se o glúten é o seu inimigo, foque suas energias em garantir que ele saia de sua vida. Tire o peso de cima do que você acha que está “perdendo”  e  valorize o que você está ganhando – Saúde! 

A sociedade pode reagir à sua dieta com respeito ou com ironia, desconsideração ou até mesmo pena. As  expressões  “só um pouquinho não faz mal” , “isso é frescura” ou “é dieta da moda” fazem parte da nossa vida. Podemos ter paciência e explicar ou podemos  “chutar o balde” e ir comer em outra freguesia, sem glúten...

2 - Enfrente a situação: se organize 

Seja em casa, no local de trabalho ou estudo, você precisa aprender a planejar o seu dia em relação ao que vai comer e onde. É esse planejamento que vai te ajudar a seguir firme na dieta. Com o tempo vai se tornar uma coisa tão automática quanto se organizar para ir trabalhar ou estudar ou outras tarefas que exigem um certo planejamento mas que já fazemos rotineiramente.

Pense no cardápio da semana e faça compras sempre que possível - mantenha a geladeira abastecida com alimentos frescos, mantenha seus armários com o mínimo necessário de ingredientes para que você possa cozinhar e ter sempre à mão alimentos sem glúten saborosos e nutritivos. O fato de não ter comida sem glúten segura em casa ou no trabalho é o motivo  mais comum para furar a dieta. Marmita agora é a “nova ordem mundial” na sua vida – sua companheira de todas as horas, certas e incertas!

3 - Construa sua Rede de Apoio 

Precisamos nos cercar de pessoas que possam nos ajudar não só com a dieta, mas também quando adoecemos ao furar a dieta, voluntária ou involuntariamente. Para uns serão os familiares mais próximos, para outros serão amigos ou vizinhos. Informe a essas pessoas sobre suas restrições alimentares. Explique os problemas com os riscos de contaminação cruzada e como isso afeta o seu cotidiano (mas não espere que essas mesmas pessoas se tornem especialistas no assunto – você é que precisa saber com segurança como e porquê o glúten te afeta e onde ele se esconde!). 

Esteja com seus iguais! É muito bom poder trocar experiências com outras pessoas que também estão nessa jornada sem glúten, mesmo que seja através do mundo virtual das redes sociais. Encontre seu grupo, faça novos amigos e toda vez que sentir que a vida sem glúten está ficando pesada e difícil, recorra a eles para ganhar forças e ânimo para vencer as dificuldades e os novos desafios.

4 - Busque ajuda profissional 

Se já tem meses que você está tentando seguir uma dieta sem glúten bem  feita e não está conseguindo, é o momento de buscar ajuda profissional. Nutricionistas e Terapeutas especializados em transtornos alimentares poderão te ajudar a identificar os problemas e junto com você encontrar soluções para sanar essas dificuldades. 

Algumas deficiências nutricionais podem estar atrapalhando as mudanças em relação à dieta. Uma pessoa anêmica terá mais dificuldades em conseguir se organizar e dar conta de todo o planejamento que a dieta sem glúten necessita. Assim como deficiências de B12, ácido fólico, vitamina D, ferro também vão influenciar negativamente na forma que a pessoa age ou se sente. Ou podemos estar diante de transtornos emocionais, como ansiedade, depressão, síndrome do pânico, compulsão alimentar, anorexia, bulimia. O glúten está relacionado a muitos desses transtornos.

5 - Conheça novos sabores - reaprenda a comer 

Um erro que muitas pessoas cometem é ficar eternamente presos aos sabores e texturas antigas, aqueles dos alimentos com glúten. É uma eterna busca pelo “pão francês sem glúten” perfeito e muita frustração, já que os resultados serão sempre “similares”, mas não idênticos.  

Aprenda a apreciar os novos sabores que você está descobrindo com a dieta sem glúten. Dê tempo ao seu paladar. Assim como o bebê deve ser exposto ao mesmo alimento de 8 a 10 vezes para que ele se acostume e aprenda a gostar daquele sabor, quem entra na dieta sem glúten precisa passar pelo mesmo processo. Mas se ficar sempre ligado aos sabores antigos, vai perder a oportunidade de apreciar o  novo ou mesmo de conseguir criar novas receitas.
A culinária tradicional brasileira é naturalmente sem glúten e muito rica. Aventure-se! Se jogue em novos ingredientes, em novas preparações. Desperte seu lado “Chef”!

6 - Encontre novas estratégias para velhas situações 

Se você vai comer na casa de parentes, sair com amigos, participar de alguma festa ou eventos onde serão servidos alimentos com glúten, leve sua refeição. Não sinta vergonha – você tem uma necessidade alimentar especial e está protegendo sua saúde. Ou coma em casa, antes de sair. Assim estará bem, aproveitando a companhia de amigos e parentes, sem risco de voltar doente para casa.

Se for possível, passe a fazer as reuniões de família em sua residência, onde você pode controlar melhor o que vai ser preparado, garantindo assim sua segurança. 

Se você vai viajar, faça o dever de casa: descubra antes se no local você terá como se alimentar de forma segura. Pesquise na internet, pergunte em grupos sobre dicas e recomendações e mesmo sabendo que no seu destino haverá acesso a alimentos sem glúten, leve comida na mala. Nessas horas os industrializados são nossos “melhores amigos”. Latas de milho, ervilha, feijão, atum, sardinha, embalagens com azeitonas, conservas de palmito ou picles, biscoitos, pães, barrinhas energéticas, frutas desidratadas. Se a viagem  tiver duração de muitos dias leve pelo menos uma panela elétrica  de fazer arroz (bivolt). Além de cozinhar arroz e legumes no vapor, você poderá fazer uma infinidade de receitas cozidas de forma segura e sem estragar a viagem por causa de uma possível contaminação por glúten ou mesmo por falta de alternativa de alimento sem glúten. 

7 - Saúde x Doença - Conhecimento traz  firmeza nas escolhas 

Quanto mais aprendemos sobre nossa condição, mais facilmente podemos tomar decisões sobre nossa dieta e nossa saúde. Entender como e porque o glúten te afeta é essencial para, em um momento de dúvida ou tentação em furar a dieta, esse conhecimento te ajude a se manter longe do perigo.

Não se trata de querer saber mais que seu médico ou nutricionista. É questão de sobrevivência! Troque informações com outras pessoas na mesma situação que você, descubra fontes confiáveis de informação e estude. Se torne professor de você mesmo.

8 - Mudança de Paradigmas 

“Reconhecer a necessidade de mudar a forma como percebemos nossos problemas é o primeiro passo para solucionar a causa de todas as dificuldades. Como alguém pode mudar o que não está funcionando em sua vida, se continuar apegado aos mesmos padrões de percepção de antes?

A lógica elementar nos diz que para resolver um problema é necessário colocá-lo sob uma ótica diferente daquela que o criou. Isso requer uma mudança de paradigma, uma nova forma de ver a si mesmo e à vida. É preciso mudar a forma como percebemos as nossas dificuldades e as interpretamos internamente, a fim de que possamos nos abrir para outras dimensões da realidade. E assim, encontrar o caminho para as soluções desejadas.”  Jael Coaracy

É difícil acreditar que um alimento seja um veneno. É difícil admitir que aquilo que você gosta te faz mal. Mas só mudando nossa visão sobre esse alimento será possível nos afastar dele.

9 - Transforme a realidade à sua volta 

O mundo é glutenado – ponto. Não vamos conseguir mudar o mundo, mas podemos educar quem convive conosco sobre nossa necessidade alimentar especial, sobre nossa condição. É justamente com essa ação de informar e educar que veremos acontecer as  mudanças importantes à nossa volta. Acredite na sua capacidade de, junto com sua rede de apoio, sensibilizar as pessoas sobre vivermos em um mundo mais inclusivo e diverso. Esse processo é lento, mas os resultados acontecem.

Participe de grupos, presenciais ou virtuais. As ideias brotam e as ações aparecem.

10 - Empatia e Compaixão - calçando os sapatos dos outros! 


A comunidade dos “sem glúten” é grande e diversa. Uma parte dela enfrenta muitas dificuldades em conseguir fazer uma dieta sem glúten rigorosa. Dizer que furar a dieta “é preguiça de não cozinhar”,  “é fraqueza de caráter” ou “mimimi de quem não quer sair da zona de conforto” são expressões repetidas inúmeras vezes por pessoas do próprio grupo. Não reproduza esse comportamento. A empatia nos ajuda a ver com os olhos do outro. A Compaixão nos coloca lado a lado com  a dor do outro.

Agir com firmeza e ajudar a quem está precisando encarar a realidade é diferente de ofender ou menosprezar o que o outro sente. Se você hoje já caminha firme na estrada sem glúten, divida suas experiências e ajude quem está chegando.

Se você acabou de chegar, identifique e respeite aqueles que já superaram as dificuldades e estão compartilhando seu conhecimento para que os novos desafios sejam mais amenos para todos.

Conheça o web aplicativo (navegue pelo celular ou computador sem precisar baixar ou baixe para seu celular): http://app.vc/vida-sem-gluten